
Por que vinho é tão caro no Brasil?
Antes de tudo, tem o câmbio. Uma garrafa de €10 na vinícola já chega ao porto brasileiro custando cerca de R$ 58 só na conversão da moeda. A partir daí, entra a conta brasileira e não é um motivo só, são quatro empilhados:
- Cascata tributária. A garrafa chega ao porto por navio, dentro de um contêiner, carregando também frete e seguro. A partir daí, o Brasil cobra imposto em cima de imposto. No caso de uma garrafa europeia, o imposto de Importação é de 24% (era 27% até maio), IPI de 6,5%, PIS/COFINS de 11,75% e ICMS estadual de 25% em SP. Um estudo do IBPT muito citado no setor calcula essa carga em quase 78% para o vinho importado fora do Mercosul. Vale a ressalva: é um levantamento da década passada, anterior ao corte do IPI e à queda tarifária deste ano, e o próprio instituto depois revisou para perto de 70%. A conta exata é discutível; que é altíssima, não é. Se o vinho for argentino, chileno ou uruguaio, o primeiro degrau é zero por causa do Mercosul, e a carga cai bastante. O vinho nacional escapa só do imposto de importação: IPI, PIS, Cofins e ICMS ele paga igual. Pra ter dimensão: em Portugal, na Itália ou na Espanha, o vinho tranquilo não tem imposto específico nenhum, a alíquota é zero. Sobra só o IVA local, entre 21% e 23%, o que dá algo entre 17% e 19% do preço final na prateleira. Na Argentina, considerada país de carga alta, os impostos representam cerca de 42% do preço final, segundo estudo da consultoria Invecq para a Bodegas de Argentina, de 2025.
- Burocracia. Todo vinho importado precisa de um laudo de análise feito antes do embarque, por laboratório cadastrado no Ministério da Agricultura no país de origem. É um controle sanitário e de qualidade. E, quando o vinho chega, o Ministério pode coletar duas garrafas de cada rótulo e refazer a análise aqui, ainda que já tenha o laudo, o que custa de R$ 700 a R$ 800 por garrafa. Não é sempre: rótulo do mesmo produtor já aprovado nos últimos 12 meses costuma ser dispensado. Às vezes a amostra fica meses parada até virar laudo, o que também é dinheiro parado. Quem ajudou nessa conta foi Marco Stallone, CEO da Vinífera Import de Salvador.
- Engenharia tributária estadual. Nem todo mundo paga a conta cheia. Alguns estados criaram regimes especiais que reduzem bastante a carga do ICMS na entrada do vinho: Santa Catarina, Espírito Santo, São Paulo e Rondônia. Quando o vinho sai pra ser vendido em outros estados, ainda incide ICMS interestadual, mas quem tem escala escolhe por onde importar. O pequeno importador, que traz 50 garrafas, não tem porte pra estruturar operação assim.
- Margem do importador. Depois de tudo isso, o importador coloca a própria margem, que costuma ficar entre 30% e 50%. É sobre essa margem já mais alta que o revendedor vai comprar e recolocar seu preço.
Traduzindo em exemplo prático: uma garrafa que sai da vinícola na Europa por €10 chega na prateleira brasileira em torno de R$ 160 a R$ 200, dependendo do câmbio, do estado por onde entrou e da margem do varejo. O câmbio explica uma fatia disso, o resto é a soma dos quatro fatores acima.
E vem mais imposto pela frente. Em 2027 entra em vigor o Imposto Seletivo, apelidado de "imposto do pecado", criado pela Reforma Tributária pra produtos considerados nocivos como bebida alcoólica, cigarro e refrigerante. Ao contrário do que muita gente supõe, o Seletivo não é uma camada a mais: ele substitui o IPI, que vai a zero em 2027. O problema é mais sutil. O Seletivo entra na base de cálculo dos outros tributos, gerando imposto sobre imposto, e não pode ser abatido por quem revende, então é repassado inteiro ao consumidor. A alíquota ainda não foi definida, e o prazo para isso fecha em outubro. Como estamos em ano eleitoral, o setor ganha janela pra pressionar. Reduzir a alíquota é possível; tirar o vinho da lista já é considerado improvável.
*(Fontes: Marco Stallone / Vinífera Import via comunidade EnoCultura | eCOMEX sobre acordo Mercosul-UE | NCM/TIPI para IPI | SEFAZ SP, SC, ES e Migalhas sobre TTD Rondônia | IBPT, carga tributária de bebidas | Tax Foundation, Wine Taxes in Europe | Ámbito / estudo Invecq para a Bodegas de Argentina, 2025 | Economic News Brasil sobre Imposto Seletivo, jul/2026 | Tax Group sobre reforma tributária | Congresso em Foco e InterBev Strategy sobre a tramitação do Seletivo)*